⚜ Patrimônio Cultural & Lírico de Pernambuco

Benedito Cunha Melo
A Alma da Trova Nordestina

Poeta, jornalista combativo e professor. O homem que transformou os canaviais, os morros e a alma de Jaboatão dos Guararapes em sonetos, sátiras e no hino oficial que atravessa gerações.

“Já viste o que faz o orvalho,
à noite, no campo-santo?
Chega às cruzes como orvalho,
cai das cruzes como pranto!”
Benedito Cunha Melo De Folhas Secas (1939)
Fotografia histórica do Poeta Benedito Cunha Melo em terno e gravata
Benedito Tavares da Cunha Melo
Goiana, 1911 — Jaboatão dos Guararapes, 1981
✒ Fundador do Jaboatão Jornal
Rolar
70 Anos de Vida Dedicados à palavra e à docência (1911–1981)
8 Livros de Poesia De Folhas Secas à antologia póstuma
+20 Anos de Colunismo A célebre coluna "Trovas e Trovoadas"
2 Hinos Oficiais Hino de Jaboatão e do Padroeiro Santo Amaro
3 Gerações Literárias Pai do premiado poeta Alberto da Cunha Melo
Histórico & Existência

A Jornada do Menino de Goiana ao Decano de Jaboatão

Conheça os principais episódios que forjaram a sensibilidade poética, a liderança cultural e a verve cívica de Benedito Tavares da Cunha Melo.

25 de Março de 1911

O Berço Literário em Goiana

Benedito Tavares da Cunha Melo nasce no histórico município canavieiro de Goiana, na Zona da Mata Norte pernambucana. Filho do tabelião e poeta Alberto Tavares da Cunha Melo e da poeta Dona Virgínia Tavares de Miranda Lins, cresce imerso em um lar onde a paixão pelos sonetos, pelo decassílabo e pela leitura era tradição secular.

Uma linhagem de intelectuais e juristas onde a poesia corria no próprio sangue.
1924

O Abraço a Jaboatão dos Guararapes

Aos 13 anos de idade, fixa residência com sua família no município de Jaboatão dos Guararapes. A cidade — com seus morros, sua ferrovia pulsante e seus vastos canaviais — torna-se sua morada definitiva e seu solo de inspiração perpétua. Ali exerceu a docência e o jornalismo por mais de cinco décadas.

"Jaboatão, nos verdes vivos dos teus altivos canaviais..."
1939 – 1949

A Consagração Lírica: Folhas Secas

Estreia no universo editorial em 1939 com o livro Folhas Secas, recebendo elogios da crítica literária do Recife. Seguem-se Versos Diversos (1948) e Nuvens de Pó (1949). Seus versos destacam-se pela maestria formal, melancolia profunda e um lirismo filosófico que reflete sobre a brevidade da vida humana.

1950

Fundação do "Jaboatão Jornal"

Funda e assume a redação-chefe do Jaboatão Jornal, periódico mensal pioneiro que desempenhou papel decisivo na reflexão política, comunitária e cultural da região metropolitana. Benedito inaugura a coluna Trovas e Trovoadas, mantendo-a viva semanalmente por mais de 20 anos.

O jornalismo se aliava à literatura para defender os humildes e alfinetar os poderosos.
1955 – 1957

O Pseudônimo "K. Olho" & O Bode Cheiroso

Sob o mordaz pseudônimo de K. Olho, assina crônicas e versos satíricos antológicos. Nesse período, a redação do jornal imortaliza o episódio folclórico do "Bode Cheiroso", animal de rua lançado em protesto irônico como candidato a vereador nas eleições de Jaboatão, fato que ganhou os jornais da capital e repercussão no exterior.

1962

Trovas e Trovadores & Os Hinos Cívicos

Publica a coletânea Trovas e Trovadores, em colaboração com Rodovalho Neves, Fernando Burlamaqui e Bezerra da Cunha. Neste período fecundo, tem oficializada sua autoria da letra do Hino Oficial de Jaboatão dos Guararapes (com melodia de Nina de Oliveira) e do Hino do Padroeiro Santo Amaro.

1980 – 1981

Canto de Cisne & A Despedida

Em 1980 lança sua última obra em vida: Canto de Cisne, um testamento estético sobre a finitude e o amor à arte. Em 6 de outubro de 1981, aos 70 anos de idade, Benedito Cunha Melo falece em Jaboatão dos Guararapes. Recebe o título solene e eterno de Cidadão Jaboatonense outorgado pela Câmara de Vereadores.

2009 – Presente

Poesia Seleta & A Memória Eterna

Seu filho, o celebrado poeta Alberto da Cunha Melo, organiza e publica postumamente a antologia Benedito Cunha Melo – Poesia Seleta (2009). Benedito tem seus poemas imortalizados no compêndio Pernambuco, Terra da Poesia (Antônio Campos e Cláudia Cordeiro) e seu nome gravado em bibliotecas, escolas e ruas de Pernambuco.

Antologia Poética

A Arte Concisa da Trova

A trova é a síntese suprema da poesia em língua portuguesa: quatro versos de sete sílabas poéticas (redondilha maior) com rimas perfeitas. Explore a mestria de Benedito Cunha Melo.

Finitude & Cemitério
Já viste o que faz o orvalho,
à noite, no campo-santo?
Chega às cruzes como orvalho,
cai das cruzes como pranto!
Filosofia da Existência
Que esta vida é um mar fremente,
quem é que pode negar,
se até o pranto da gente
tem gosto da água do mar?
Amor & Origem da Saudade
Saudade — sombra fagueira
dos tempos que já passaram,
nasceu da ausência primeira
dos que primeiro se amaram.
Humildade & Queda
Subindo a escada da vida,
não me incomoda a ascensão.
Penso muito é na descida,
já vendo tantos no chão.
Ideal & Desilusão
Eu te ergui alto, tão alto,
no meu sonho e amor de Jó,
que te vejo, como estrela,
e tu me vês, como pó.
Sátira & Soberba Humana
Neste mundo, nesta vida,
pior, talvez, que os ateus,
há gente tão convencida
que não quer Deus, quer ser Deus.
Canto Cívico & Patriótico

Hino Oficial de Jaboatão dos Guararapes

A consagração de um amor imorredouro por sua terra adotiva, entoado por estudantes, cidadãos e autoridades há décadas.

Hino do Município de Jaboatão

Letra: Benedito Cunha Melo
Música: Nina de Oliveira
Status: Hino Oficial Municipal
Estrofe I

Jaboatão,
Nos verdes vivos dos teus altivos
Canaviais,
Há sempre rindo uma esperança
até na dança dos matagais.
É uma esperança que nunca finda
e que se alinda de inspiração.
Ver-te sem guerra, terra dos altos,
linda terra da promissão.

Estrofe II

Eu amo o teu cruzeiro,
teu sol que é mais brasileiro;
teus altos que a gente vence
até sem ser jaboatonense.
Eu amo teu céu profundo,
maior que já vi no mundo,
e no meu sonho ideal,
quero mais a ti,
Oh! Terra natal.

Imprensa & Crônica Humorística

A Pena Afiada: Do Jaboatão Jornal a "K. Olho"

Benedito não vivia apenas no olimpo dos sonetos; era um jornalista militante das causas populares e um satírico brilhante que não poupava a mediocridade política.

Fundado em 1950

Vinte Anos de "Trovas e Trovoadas"

Como fundador e redator-chefe do Jaboatão Jornal, Benedito criou um dos espaços de maior repercussão da imprensa regional: a coluna Trovas e Trovoadas. Sob o pseudônimo de K. Olho, o poeta comentava os flagelos locais, a corrupção eleitoral e os costumes da época com trovas satíricas de rimas cortantes.

“Sob o olhar de K. Olho, a cidade via seus vícios e vaidades expostos com elegância poética e ironia desconcertante.”
Folclore Político Nacional

A Campanha do "Bode Cheiroso"

Na década de 1950, um caprino que circulava livremente entre Jaboatão Velho, a feira de Cavaleiro e Tejipió — apelidado irônica e carinhosamente de "Cheiroso" pelo povo — virou arma de protesto cívico. A redação do Jaboatão Jornal lançou a irreverente campanha "Queremos Cheiroso!" para vereador, protestando contra as promessas não cumpridas dos políticos tradicionais.

Nas eleições municipais em cédulas de papel, o bode recebeu centenas de votos (anulados pelo TRE). O caso ganhou manchetes na revista O Cruzeiro, no Diário de Pernambuco e repercutiu na imprensa internacional. Quando o animal morreu atropelado em 1957 na Avenida José Rufino, coube aos versos de K. Olho erguer o réquiem lírico que imortalizou o episódio, antecedendo em anos o rinoceronte Cacareco em São Paulo e o macaco Tião no Rio de Janeiro.

🔍 Fontes & Curiosidades Históricas:
  • Acervo do Instituto Histórico de Jaboatão (IHJ): Preserva a memória do movimento e exposições sobre o Jaboatão Jornal e o voto de protesto.
  • Música Popular de 1960: O forró histórico "O Bode Cheiroso", composto e gravado pelo cantor Luiz Wanderley, foi diretamente inspirado no episódio.
  • Cobertura de Época: Arquivos da revista nacional O Cruzeiro, Diário da Noite e reportagens comemorativas do portal Jaboatão Aqui.
  • Curiosidade de busca: Para pesquisar nos acervos da internet sem confundir com o famoso restaurante carioca homônimo, busque exatamente por: "Bode Cheiroso" Jaboatão.
Produção Editorial

Obras Publicadas (1939 – 2009)

O catálogo completo das publicações poéticas que atravessaram sete décadas e registraram a evolução do verso metrificado em Pernambuco.

1939

Folhas Secas

Livro de Estreia

Obra inaugural onde despontam sonetos líricos e a célebre trova do orvalho no campo-santo, aclamada pela intelectualidade do Recife.

1948

Versos Diversos

Coletânea Poética

Ampla reunião de formas fixas, explorando temas amorosos, a saudade e reflexões sobre o tempo.

1949

Nuvens de Pó

Lirismo Existencial

Textos marcados pela poética da transitoriedade da matéria e a elevação espiritual frente à dor.

1954

Perfis

Retratos em Versos

Homenagens, caricaturas literárias e retratos poéticos de figuras ilustres e tipos populares jaboatonenses.

1954

Da Morte, Folhas Secas e Outras Trovas

Antologia & Trovas

Aprofundamento na temática fúnebre e filosófica, estabelecendo Benedito como um dos maiores trovadores do Nordeste.

1962

Trovas e Trovadores

Coautoria Histórica

Volume coletivo lançado em colaboração com Rodovalho Neves, Fernando Burlamaqui e Manoel Bezerra da Cunha.

1980

Canto de Cisne

Despedida em Vida

Publicado às vésperas de seus 70 anos. Uma meditação comovente sobre a vida que se despede e a serenidade da alma.

2009

Poesia Seleta

Organização Póstuma

Edição memorial organizada com extremo esmero por seu filho, o poeta Alberto da Cunha Melo, reunindo o suprassumo de sua obra.

Edição Histórica Póstuma
Genealogia das Letras

Três Gerações de Poesia

Raras famílias brasileiras produziram uma linhagem poética tão consistente e influente quanto a família Cunha Melo.

1ª Geração • O Patriarca
👴

Alberto Tavares da Cunha Melo

Tabelião & Poeta

Pai de Benedito. Homem de letras respeitado em Goiana, casado com a poeta Dona Virgínia Tavares de Miranda Lins. Transmitiu aos filhos o rigor da métrica parnasiana e o amor à erudição.

3ª Geração • O Mestre Contemporâneo
🎖

Alberto da Cunha Melo

1942 – 2007 • Prêmio ABL de Poesia

Filho de Benedito. Um dos maiores poetas de língua portuguesa do século XX. Membro da Geração 65, criador da forma fixa "retranca", autor de O Cão de Olhos Amarelos e condecorado pela Academia Brasileira de Letras.

Os Filhos de Benedito Cunha Melo

Benedito teve sete filhos, semeando nos lares de Pernambuco valores de fraternidade, integridade e apreço à cultura:

  • Alberto da Cunha Melo
  • Maria das Graças
  • Margarida Maria
  • João Bosco
  • Sebastião Tarcísio
  • Francisco
  • Maria Madalena
Reconhecimento Público

A Cidade que Não o Esquece

O nome de Benedito Cunha Melo permanece vivo nas instituições do saber, na toponímia urbana e nas celebrações históricas de Pernambuco.

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Biblioteca Municipal Poeta Benedito Cunha Melo

Localizada no 1º andar da secular Casa da Cultura, no coração de Jaboatão Centro. Espaço público de incentivo à leitura, pesquisa e formação humanística de gerações de estudantes.

Jaboatão Centro • Equipamento Cultural
🎓

Escola Professor Benedito Cunha Melo

Unidade de ensino da rede estadual localizada no bairro litorâneo de Barra de Jangada, homenageando a dedicação do poeta à arte do magistério.

Barra de Jangada • Educação Pública
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Comemoração do Centenário (2011)

Solene celebração realizada pelo Instituto Histórico de Jaboatão e pela Prefeitura Municipal no centenário de seu nascimento, resgatando manuscritos, trovas e registros jornalísticos.

Instituto Histórico de Jaboatão
📍

Rua Poeta Benedito Cunha Melo

Denominação oficializada pelo Poder Executivo e publicada em Diário Oficial, cravando seu nome no mapa geográfico da cidade que ele cantou em verso e prosa.

Logradouro Público Oficial
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Cidadão Jaboatonense

Título honorífico conferido por unanimidade pela Câmara Municipal de Vereadores de Jaboatão dos Guararapes em reconhecimento aos seus inestimáveis serviços às letras e à comunidade.

Poder Legislativo Municipal
📖

"Pernambuco, Terra da Poesia"

Inclusão de destaque na histórica antologia organizada por Antônio Campos e Cláudia Cordeiro, que compila os maiores poetas pernambucanos do século XVI ao XXI.

Instituto Maximiano Campos